21 anos de fisiculturismo e muitas mudanças.

Não, não tenho 21 anos. E também não treino por 21 anos seguidos. Este texto serve para contar um pouco – 21 anos para ser mais exato – da minha relação com o fisiculturismo e as mudanças que presenciei no cenário internacional do esporte. Mudanças no perfil dos físicos, nas academias, nos treinos, na alimentação e a não mudança (ou permanência, talvez...) no preconceito idiota que persegue estes atletas.
Me lembro bem que a primeira revista que comprei sobre musculação (não me recordo o nome era impressa em preto e branco e trazia na capa Berry DeMey – tenho certeza que 90% dos leitores não fazem a menor idéia de quem seja o homem. Na época precisava ler escondido, pois um cara forte sem camisa na capa de uma revista remetia a interpretações errôneas por parte de muita gente (acho que me entenderam, né?).
O ano era 1985, e o atleta em questão despontava no cenário internacional, que naquela época se resumia ao Mister Olympia. Berry tinha ficado em sexto na sua estréia e conseguiria um honroso terceiro lugar em 1988.
Na década de 80 ainda não estava na moda os físicos freak, gigantescos. Era uma época que muitos dizem ter sido a melhor, mas há controvérsias, como tudo na vida. Atletas como Rich Gaspari, Bob Paris e Lee Labrada ainda competiam, todos clássicos, com cinturas finas, coisa difícil hoje em dia. Ainda em 1988 o Brasil entrou para história do fisiculturismo com o primeiro – e único atleta brasileiro – a competir em um MO. E, era Luiz Otávio Freitas, campeão do Mister Universe da época. Ficou em 19º lugar, o que não lhe tira nenhum mérito.
O papa-tudo do MO era Lee Haney, que alguns dizem ser o precursor da era freak., eEu discordo:, Lee tinha a cintura fina e era muito simétrico.
A transição para um novo formato de físicos, que viria ser o paradigma dos atletas, estreava em 1991 no MO., Era o inglês Dorian Yates, com cerca de 1m80 e absurdos 130 quilos definidos, um padrão muito elevado para a época, onde a maioria dos competidores entrava no palco com três dezenas de unidades de peso acima da casa dos centímetros na altura (explico: para um atleta de 1m80, o peso médio era 110 kg = 80+30. Dorian simplesmente tinha 130 kg, e cresceu mais depois). Ele ficou em segundo naquele ano, o resto todos já sabem.
Junto com o inglês vieram outros monstros como Paul Dillet, Nasser El Sombaty e Andréas Munzer. Destes três o que teve a melhor carreira foi Nasser, que chegou a conquistar um segundo lugar no MO de 1997, e ainda faturou um Arnold Classic em 1999. Paul Dillet ficou entre os top seis dois MO seguidos e depois sumiu. Andréas teve o pior destino de todos, uma morte provocada por uma combinação de drogas no auge da carreira.
Na transição para o novo século os freaks continuaram dominando, com o surgimento de Ronnie Coleman, Jay Cutler, Markus Ruhl, Gustavo Badel e companhia ltda. Há hoje uma divisão entre os especialistas e os atletas. Dizem que os freaks estão com os dias contados e os clássicos devem voltar. Vale lembrar que desde a década de 90 muitos físicos clássicos surgiram, mas nunca levaram um MO. Exemplos: Flex Wheler, Shawn Ray, Kevin Levrone. Hoje em dia estes seguidores deixaram o legado para Dexter Jackson, Melvin Anthony, Darrem Charles (este controverso), e que também nunca levaram um MO para casa. Vai saber?
No item suplementos e alimentação, quanta diferença. Quem nunca bateu e comeu um ovo cru como Rocky Balboa que atire a primeira pedra. Litros de leite, dúzias de ovos, muita, mas muita comida. Tudo isso hoje foi substituído pela tecnologia e o avanço da nutrição esportiva. Shakes que concentram quilos de carnes em uma dose, pílulas que melhoram isso e aquilo outro, aminoácidos em liquido, cápsulas e pó. Quanta diferença. Mesmo assim, precisando comer menos e suplementando mais, os atletas de hoje desenvolveram uma pança invejosa. Cintura fina é coisa de fitness, diriam eles. De onde vem aquele volume estomacal? Vai saber também, não é? Assim como a nutrição evolui, as bombas também, e não somos ingênuos de achar que todos eles têm uma genética maravilhosa que permitem que tenham 60 centímetros de braço tomando sustagem, né? Pois é, é o preço.
As academias, este item eu conheço de perto. Entro em academias desde 1985, era para ser um gigante, vocês devem pensar. Era, mas não sou. A primeira, e uma das duas únicas que existiam na cidade, parecia a visão do inferno de Dante. Telhas de alumínio a menos de 50 centímetros de nossas cabeças. Chão de carpete (af) e muita barra e anilha largados pelo chão. Vestiário? Coisa de luxo. Mulheres, idosos? Mudavam de calçada quando chegavam perto da academia. Pois ela existe até hoje e mantém um público fiel. Mas a cidade já conta com mais de 50 academias. Tem desde aquelas ultra-hiper-mega-chique, até as mais hardcore.
Felizmente hoje encontro com mulheres e idosos treinando e tenho um vestiário com chuveiro quente. Que beleza.
As revistas? Evoluíram bastante, coloridas, várias publicações, poucas nacionais e muitas importadas. As competições contam com um grande número de mulheres maravilhosas no fitness e figure, categorias criadas na década de noventa. Quanta diferença. Hoje leio essas revistas em qualquer lugar, sem medo das interpretações errôneas dos curiosos e maldosos de plantão.
O preconceito citado no início do texto? Ah, sim. Este ainda existe. Está tatuado em letras garrafais nos braços com mais de 40 centímetros, na barra de supino com mais de 130 quilos e nos olhos daqueles que não ousam sequer se informar sobre o que estão vendo. Uma pena, mas até hoje, nenhuma diferença.

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