Traduções Inexatas da Literatura Esportiva, no Brasil,
Relacionadas ao Levantamento de Peso Olímpico (LPO).

Resumo:
Na qualidade de ex-atleta e atual treinador da Seleção Brasileira de LPO, o autor relata a desinformação existente nos livros de literatura esportiva do Brasil, devido aos graves erros de tradução, em referência aos exercícios específicos da modalidade. Os renomados autores de grande popularidade no Brasil têm os textos traduzidos com sentido totalmente diferente de suas intenções. Foram selecionados para exemplificar os erros os livros de Enoka R.: Bases Neuromecânicas da Cinesiologia; Badillio G.,Ayestarán G.:Fundamentos do Treinamento de Força; Komi P.V.: Força e Potência no Esporte e Flek S. & Kraemer W.: Fundamentos do Treinamento de Força Muscular. O artigo explica os erros, informa o leitor sobre terminologia e dá sumariamente as descrições corretas dos exercícios específicos de LPO no Brasil.

Unitermos: Traduções, literatura esportiva, levantamento de peso olímpico, LPO
Entrei em uma sala de LPO em 1980 e comecei a treinar em 1981 no meu país, R.Romênia. No primeiro dia os treinadores do meu clube me apresentaram a ficha com os exercícios e me pediram para aprender a terminologia usada nela. Até agora a terminologia não mudou e qualquer profissional de educação física do meu país entende a nomenclatura dos exercícios, até mesmo se não sabe executá-los.
Na qualidade de treinador e praticante do Levantamento de Peso Olímpico (LPO), fiquei assustado com a desinformação existente no Brasil relacionada a este esporte, fato que me levou a publicar este artigo pessoal que tem o propósito de informar e esclarecer termos técnicos específicos da modalidade e a descrição dos seus mais importantes exercícios que são: arranque e arremesso.
Tento deixar a leitura fluir, indicando as referências bibliográficas no final do trabalho. Para as referências relacionadas aos movimentos e sua nomenclatura usei, em primeiro lugar, os livros romenos e cubanos da especialidade. Para as referências em inglês usei ”The Weightlifting Encyclopedia” e Dicionário Webster.
O Brasil tem uma boa tradição esportiva, com muitos clubes com mais de 100 anos de existência em atividade, mas não tem uma boa cultura geral esportiva devido ao fato que, tirando o futebol, outras modalidades são praticadas por poucos adultos aficionados. Contudo, atualmente, o Brasil está dando grandes passos para aumentar e desenvolver o esporte olímpico. O nível de preparação e informação dos profissionais de Educação Física está crescendo e, acompanhando o processo, também está aumentando o número de publicações e livros de especialidades. Muitos autores de fama mundial estão sendo traduzidos e novas edições dos seus trabalhos são publicadas constantemente.
As traduções são em geral boas, mas devido à desinformação dos tradutores, relacionado à atividade esportiva, às vezes se chega a graves confusões. Em relação ao LPO, as traduções estão pecando mais ainda devido ao total desconhecimento no qual se situa este desporto no Brasil e provocando um efeito contrário ao previsto pelo autor: ao invés de informar e esclarecer, elas desinformam e confundem.
Estes fatos chegam ao ponto que eu, pessoalmente, com mais de 25 anos de prática de LPO, quando estou lendo um livro de especialidade traduzido no Brasil não entendo qual exercício está em discussão. Uma vez, somente após ler o livro inteiro, pude entender de qual exercício o autor falava.
Estou aproveitando também para recomendar ao público interessado em LPO, livros e sites que podem acrescentar algo ao seu conhecimento. Os livros que mais fazem referências ao LPO, traduzidos no Brasil, e que recomendo para serem lidos são:

Roger M. Enoka; BASES NEUROMECÂNICAS DA CINESIOLOGIA,São Paulo,Editora Manole,2000

Badillio G.,Ayestarán G.; FUNDAMENTOS DO TREINAMENTO DE FORÇA, Aplicação ao alto rendimento desportivo,Porto Alegre,Editora Artmed,2001.2°ed.

Komi P.V.; FORÇA E POTENCIA NO ESPORTE; Porto Alegre,Editora Artmed,2006.


Vou acrescentar também o livro Flek S. & Kraemer W.; FUNDAMENTOS DO TREINAMENTO DE FORÇA MUSCULAR, Porto Alegre,Editora Artmed,2006.3° ed., pela sua alta popularidade entre os alunos e profissionais de educação física.
Devido à importância destes autores e dos seus livros para o LPO, vou começar com eles o meu trabalho. Roger M. Enoka, é autor do livro acima mencionado, traduzido no Brasil, e de muitos outros trabalhos sobre biomecânica e movimento esportivo. É PhD e o seu trabalho de doutorado foi relacionado ao LPO. Aliás, muitos dos trabalhos e exemplos que usa no livro são relacionados a atletas de LPO, demonstrando domínio total da modalidade.
Contudo, na página 308 do livro, a descrição do arranque é errada. A tradutora definiu o arranque como: “um movimento que requer o deslocamento da barra do solo para o tórax num movimento rápido continuo”. O movimento acima descrito não é do arranque. No arranque a barra é levantada do solo até acima da cabeça com os braços em total extensão. O movimento descrito pela tradutora, representa o primeiro tempo do exercício arremesso.
Em seguida, na mesma página 308, Enoka apresenta uma tabela que analisa a potência liberada pela barra em três exercícios de levantamento: arranque, supino e agachamento. Enoka demonstra que o arranque é o exercício que desenvolve mais a potência, em comparação com supino e agachamento. Depois a tradutora escreve: “Isso é interessante porque o agachamento e o supino são dois dos três levantamentos que compõem o esporte de levantamento de peso”. Aqui a tradutora está desinformando e confundindo o leitor porque ela estabelece que o esporte ao qual está se referindo Enoka é o Levantamento Básico (Power Lifting) e não o LPO.
Continuando ela escreve: “...dados sugerem que o sucesso nos levantamentos com supino e agachamentos não é determinado apenas pela produção da potência”. Ela está certa, mas Enoka fez a tabela para colocar em evidência a potência e não a força. O parágrafo respectivo que começa na pg.306 e acaba na pg.310 trata de Potencia Muscular e não de Força! A tradução e interpretação errada levam o leitor a um caminho errado, oposto do que o autor queria, fato culminando com a conclusão: “..pode-se especular que o sucesso no levantamento de peso está relacionado mais com a força, como foi definido”.
Como escrevi acima, Enoka baseia seus trabalhos no LPO, parágrafo respectivo que começa na pg.306 e acaba na pg.310 trata de Potência Muscular e não da Força (força pg.290 ate pg.306) então a conclusão da tradução deveria ser: “... pode-se especular que o sucesso no levantamento de peso olímpico está relacionado mais com a potência, como foi definido”. Eu acho esta conclusão de extrema importância devido à informação que o leitor vai ter, que define o caráter dos movimentos determinantes usados no LPO.
O segundo livro, Fundamentos do Treinamento de Força, é escrito por dois autores espanhóis, dos quais um, Badilio Gonzáles, chegou a ser o treinador da seleção nacional da Espanha de LPO. Na pg. 208 do livro os autores indicam os exercícios “de efeito generalizado e Potência Máxima”.
A tradutora escreve: “- arrancada de força, carregamento de força, jerk e push-jerk”. Traduzindo da outra língua, como um exercício de potência pode se transformar em exercício de força? Exemplo: arrancada de força ou carregamento de força!
Como citei no começo, eu mesmo não entendo a qual exercício a tradutora se refere. Falo tradutora porque com certeza o autor sabe que escreve na qualidade de treinador de LPO. Arrancada de força deve ser um dos estes dois exercícios:

1.     Arranque em Pé onde a barra é levantada do solo até acima da cabeça com os braços em total extensão e flexão dos joelhos até o máximo de 90°. O movimento é extremamente explosivo, caracterizando a potência e não a força.

2.     Arranque Força onde a barra é levantada do solo até acima da cabeça com os braços em extensão sem deslocamento lateral das pernas e flexão dos joelhos até no máximo 15°/20°. O movimento é explosivo, mas devido ao fato de que o atleta é impedido de deslocar as pernas e de flexionar os joelhos no final do movimento, o exercício caracteriza mais a força.

Pessoalmente opto pelo primeiro exercício devido ao fato de que ele é o mais importante exercício de potência do esporte. O erro começa quando a palavra “power” do inglês é traduzida para descrever uma ação esportiva como força ao invés de potência. Nos dicionários existentes se usa também o termo força, mas se consultar todas as interpretações terá que escolher a mais apropriada ao gesto motor em discussão. Para conseguir isto é obrigatório que o autor da tradução conheça a ação em discussão. “Carregamento de força” não existe em nenhuma metodologia esportiva, independente da modalidade!
Particularmente penso no primeiro tempo do Arremesso em Pé, exercício onde a barra é levantada do solo até o peito, posicionando-se nos ombros e flexionando-se os joelhos até no máximo 90°. “Jerk e Push-jerk” não são traduzidos, e eu pergunto: quantas pessoas sabem como se fazem estes exercícios? “Jerk” representa o segundo tempo do arremesso onde a barra é levantada, com uma impulsão das pernas, do peito/ombros até acima da cabeça com os braços em total extensão e deslocamento das pernas no plano ântero/posterior executando-se movimento tesoura. “Push-jerk” representa o segundo tempo do arremesso onde a barra é levantada, com uma impulsão das pernas, do peito/ombros até acima da cabeça com os braços em total extensão, com ou sem deslocamento das pernas no plano látero/lateral.
Na pg 227 a tradutora usa o termo “arranque total” e descreve o arranque de competição. No Brasil não temos uma linguagem única para o LPO e a CBLP não publica os nomes dos exercícios. O termo e a descrição são corretos, mas estou usando o termo “arranque técnico” devido ao fato de que “arranque total” pode ser executado, como exercício educativo, lento ou até em força, fato que descaracterizaria o arranque de competição.
Na pg. 227 a tradutora usa o termo “arranque parcial”. A descrição dada para o exercício é: ‘tudo que foi exposto no arranque total é valido para este exercício. A diferença fundamental entre ambos está no fato de que o arranque parcial é realizado com mais peso. “Quanto à técnica, só se diferenciam pelo fato de que as mãos, ao agarrarem a barra, estão mais juntas do que no arranque total e a barra só é levantada até os ombros”.
Para mim fica claro que está se falando do primeiro tempo do arremesso, mas será que o leitor vai entender? Existe uma grande confusão entre arranque e arremesso! Fazendo um paralelo, seria como dizer: o ginasta salta do mesmo jeito, mas ao invés de fazer salto grupado faz uma pirueta! Ou: o ginasta salta de mesmo jeito, mas ao invés de dar um salto simples dá um triplo!?
No terceiro livro, Força e Potência no Esporte, os autores dedicam um capitulo inteiro ao LPO. O livro é muito bom e muito importante, sendo resultado de um pedido do COI. Contudo ele tem também graves erros de tradução. Na pg.517 os tradutores escrevem: “Em 1972, dois levantamentos acima da cabeça foram introduzidos nas competições de LPO...”
Arranque e arremesso não foram introduzidos em 1972! Eles já estavam nos Jogos Olímpicos de 1920! Em 1972 foi retirado o estilo desenvolvimento ou militar press. “A tradução exata seria: Em 1972, ficaram somente dois estilos de levantamentos nas competições de LPO...”. O estilo desenvolvimento ou militar press foi abolido devido aos grandes problemas de saúde e arbitragem que trazia. O estilo era na verdade um arremesso com a diferença de que no segundo tempo a barra era levantada do peito/ombro até acima da cabeça em força, sem nenhum impulso adicional das pernas.
Na mesma frase os tradutores continuam: “...,o arranque e o arremesso desenvolvido”. Acabaram de eliminar em 1972 o “arremesso desenvolvido” e os tradutores o oficializam novamente! A tradução deveria ser somente: ‘“...,o arranque e o arremesso”.
Na mesma página os tradutores descrevem o arranque: “...O atleta em uma posição completamente agachada controla a barra acima da cabeça até o sinal de “abaixar” dos árbitros (Fig.25.1)”. Os tradutores não descrevem a última parte do movimento de arranque, a recuperação, o atleta para esperar o sinal de “abaixar” dos árbitros deve estar em pé com as pernas em total extensão! Pior é que na figura indicada (Fig.25.1) da página 518 eles descrevem a recuperação como: “(f) final do levantamento”. Então, como o atleta vai esperar o sinal dos árbitros agachado se ele não fez “o final do levantamento”?
Para piorar na pág. 517 os tradutores escrevem: “...Os pés e as pernas são unidos para manter a barra sob controle acima da cabeça até o sinal de “abaixar” dos árbitros”. Os pés não são unidos para manter a barra sob controle, contrariamente, a redução da superfície de equilíbrio dificulta o controle e não facilita!
O regulamento IWF estipula a obrigatoriedade de o atleta colocar os pés na mesma linha, por isto o atleta sai da sua posição inicial de controle da barra acima da cabeça. O regulamento IWF não estipula a obrigatoriedade do atleta de unir os pés. Como os tradutores não sabiam deste fato eles se inspiraram na fig.25.2, pag. 519, que apresenta o atleta russo Kuznetzov, cat. 100kg (até 1992 existia esta categoria). Ele era um gênio do equilíbrio, equilibrando a barra com maior facilidade e os pés unidos, fato que caracterizava seu estilo pessoal e não a técnica de LPO em geral.
Atualmente não há nenhum atleta que faça isso de propósito. Penso até que foi uma escolha infeliz colocar os fotos do movimento arremesso deste atleta como exemplo, já que a posição não é característica para todos os atletas e o leitor vai ficar com uma imagem diferente da realidade de um dos movimentos do LPO.
O quarto livro, Flek S. & Kraemer W.; Fundamentos do Treinamento de Força Muscular é muito conhecido entre os profissionais de educação física do Brasil chegando na 3ª edição. Contudo a tradução tem vários erros:
Na pág. 168 o tradutor escreve na descrição do arranque: “Relativo ao power clean. Também denominado exercício de metido no peito”. Está claro que o tradutor descreve o arremesso, especificamente o Primeiro Tempo de Arremesso em Pé, e não o arranque.
Na mesma pág. ele cita os exercícios desta forma: “arranques, arranques e arremessos”.

Em inglês:
snatch = arranque
clean and jerk = arremesso, onde:
clean = primeiro tempo de arremesso
jerk = segundo tempo de arremesso

Em referência ao LPO, arranque e arremesso se escrevem: snatch, clean & jerk. Este tipo de citação combinado com a descrição errada do arranque aparece muitas vezes confundindo o leitor, dando a impressão que “arranques e arremessos” é um exercício à parte, já que arranques está descrito como outro exercício na pág. 169, onde está se falando de levantamentos avançados.


Conclusões:
Como podem ver há muita confusão e equívocos em nossas traduções causadas especialmente porque o LPO não é conhecido no Brasil e, até as pessoas da especialidade estão desinformadas. Espero que esse artigo possa ajudar a esclarecer mais as pessoas interessadas. Qualquer informação adicional poderá ser adquirida com perguntas diretamente através do meu site


Bibliografia:
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  CORZO, Alfredo G.H..LEVANTAMIENTO de PESAS, deficiencias técnicas. Ciudad de la Habana, Editora Científico – Técnica:1992
  DRECHSLER, Arthur. THE WEIGHTLIFTING ENCYCLOPEDIA, a guide to world class performance. A IS Communications, Flushing, N.Y..2000.
  ENOKA, Roger M.; BASES NEUROMECÂNICAS DA CINESIOLOGIA,São Paulo,Editora Manole,2000
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  HOUAISS,Antonio; CARDIM,Ismael.DICIONARIO WEBSTER O GLOBO.Rio de Janeiro. Editora Quark do Brasil Ltda.1996.
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  ROMAN, Ivan S. LEVANTAMIENTO DE PESAS CIUDAD DE LA HABANA, 1986
  ROMAN, Ivan S. MULTI FUERZA. Ciudad de la Habana, Editora Científico – Técnica: 1998
  Site oficial da Federação Internacional de LPO onde se pode consultar tudo sobre o regulamento da competição: www.iwf.net

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