BRACISMO

ENTREVISTAS

Luta de Braço – Um Campeão Fala Desse Esporte Que Integra e Ensina a Ter Fé na Vida

Cláudio Simon tem 24 anos, é de Londrina, Paraná, formado em direito e no caminho para um mestrado na área. É vice-campeão brasileiro de Luta de Braços em 2006, há cinco anos atleta e colecionando títulos, conta um pouco de sua trajetória de sucesso e do significado do esporte em sua vida.

(Marília – Portal do Ferro) – Cláudio, como você chegou à Luta de Braço?

(Cláudio) - Descobri a LB meio tarde... Mas, foi um encontro perfeito. Na infância e adolescência, sempre fui um gordinho zuado... Daqueles recriminados pelos colegas de sala, em razão da pressão dos professores de educação física com propostas carentes em termos de oferta de esporte. Estudei em um colégio de boa estrutura, no entanto, nunca escapei do quarteto futsal, voleibol, basquete e handebol. Em esportes coletivos eu era ruim em razão do tamanho... Terminava usando o tamanho e machucava vários dos meus colegas. Comecei a ser excluído das atividades e tudo parecia mais difícil em razão do não aproveitamento das minhas capacidades. Era ruim em quase tudo mesmo. Na Luta de Braço, não era diferente... Tomava pau dos menores, pois não sabia técnica alguma. Só tinha algum sucesso quando acontecia algum evento como cabo de guerra ou situações em que eu utilizava o contato. Pena não ter rugby na escola... Esporte que descobri mais tarde. Aos 16 anos, somava 122Kg em 1,82 de altura. Perto de 35, 38% de gordura... Sim, estava cabuloso de horrível. Estava triste e tinha vontade de partir dessa pra próxima... Até que uma garota surgiu e tudo mudou. Por ela, caí para 84Kg em menos de 4 meses. Entrei na academia e nunca mais parei. Aos 19 anos, surgiu a primeira oportunidade da Luta de Braço, junto dos irmãos Cristian França e Ricardo França (grupo de bracistas tradicional aqui de Londrina). Pedi algumas informações e comecei a treinar para aquele campeonato interno. Com muita força de vontade, conquistei o primeiro lugar. De lá pra cá, campeonatos locais estreantes apareceram e eu sempre subi ao pódio. Até que venci. Comecei a enfrentar os grandes da cidade, que também eram e são grandes no Brasil. Em 2003, já havia me tornado referência dentro de Londrina. Parti para competições maiores no mesmo ano. Fui ao meu primeiro Brasileiro Interclubes, em Indaiatuba e ao Sul-Brasileiro, em Joinville. Em São Paulo, vi o que era Luta de Braço! Em Joinville eu fui melhor, conquistei o vice-campeonato. Em 2004, fui ao Interclubes novamente e arranhei o pódio, fiquei em 4º na esquerda e 5º na direita. Em 2005, a grande vitória pessoal... Ganhei um troféu e fui o 3º melhor do Brasil na esquerda e 4º na direita, em Valhinhos. Em 2006, fui o vice-campeão brasileiro por pontos, somando os campeonatos Brasileiro de Seleções (Recife) e Brasileiro Interclubes (Guarulhos).

(M/PF) – Você teve alguma passagem por outros esportes antes da Luta de Braço?

(Cláudio) - Antes da Luta de Braço, pratiquei alguns esportes como Basquete, Futsal e Natação. Na Universidade, conheci um pessoal que jogava Rugby. Entrei no time e joguei por um ano, em períodos alternados. Não foi possível conciliar a LB com outros esportes. Tentei o Jiu-Jitsu, mas, depois que um moleque de 11 anos deixou um cavalo de 1,89 e 105Kg dolorido... vi que não era a minha praia, literalmente...

(M/PF) – Como você definiria o lugar do esporte na sua vida?

(Cláudio) - A Luta de Braço me deu amigos, experiência, força e me proporcionou uma experiência de fé fantástica. Fé em Deus e fé em mim. Os traumas do passado foram superados e eu me considero uma pessoa vitoriosa na vida e no esporte. Como disse antes, sou e sempre serei um apaixonado por esse esporte que me ensina e me ensinou muito. Longe da imagem deturpada do filme Over to the Top, os bracistas são grandes amigos e sempre se respeitam muito. Conheci gente de todas as partes do Brasil e sei que quando precisar estarão lá para fazer o que os bracistas melhor fazem: dar uma força.

(M/PF) – Como é seu treino atualmente?

(Cláudio) - Quanto ao treino, não sei se sou um bom indicado para falar. Porque o meu treino está em mudança agora. Ainda não estabilizei uma nova rotina. Discuti com um colega que faz mestrado em Educação Física e ele disse que a minha forma de organizar, com periodização retilínea (meu vocabulário (sic)), está ultrapassado. Eu visava uma data para ficar forte, "no ponto"... Até lá, começava com resistência, hipertrofia, força e força e potência. Ao final, o treino se prolongava, com muita especificidade... Essa idéia funcionou comigo, porém, sinto que não fiz um aproveitamento suficiente da minha capacidade com esse treino. Por isso, conversarei com ele e pedirei uma nova rotina sobre treinamento. Não escondo o jogo, só não gosto de recomendar coisas erradas ou ruins para quem consultar o portal. As regras básicas para o treino de luta de braço são essas: força de vontade, compromisso e parcimônia. Nas palavras do mestre John Brzenk, a força vem com o tempo. E ele não mente. A velharada está detonando na LB! Eu estou tranqüilo e sem grandes ambições por hora. O Sr. Hugues Jorge tem 84 anos e ainda compete. Este é mais um esporte com grande longevidade. Trabalho de formiga, focado em um objetivo: ser o melhor dentro da sua possibilidade.

(M/PF) – Gostaria que você falasse um pouco sobre a alimentação do atleta de Luta de Braço e dos suplementos que você utiliza ou recomenda.

(Cláudio) - O Bracista precisa tomar cuidado com a alimentação, como qualquer atleta. Sobretudo em razão das categorias. É importante achar um meio termo, porque treinar comendo salada e banana amassada não leva ninguém ao ponto ideal. Não acredito que fazer refeições intercaladas seja a salvação. Calma! Eu não faço isso porque quem come de 2 em 2 horas não tem o que fazer. Aqui atleta profissional é uma raridade. Então, não adianta inventar moda, porque precisamos trabalhar e estudar. No café, como granola com leite e um omelete pequeno (2 ou 3 ovos), sem as gemas, com presunto. No almoço, bastante carne, salada e a dupla arroz e feijão. Ao final da tarde, tomo um café (como que um pequeno lanche). Depois do treino, o suplemento nosso de cada dia e, quando chego em casa, uma fruta ou iogurte. O nutricionista que consultei recomendava uma dieta muito cara e trabalhosa. Não dá pra tomar e comer o que ele recomendou com menos de R$ 600,00. Eu não recebo bolsa atleta e nem patrocínio, como a grande maioria dos atletas. Então, dentro do possível, viso o melhor custo x benefício. A idéia é evitar as gorduras, não ingerir álcool em temporada e, próximo do dia da competição, realizar uma dieta líquida, conforme o peso, para se enquadrar nas categorias. Na 110Kg, onde eu jogo, acontecem variações de massa de até 8, 9 quilos. Não é difícil antes da pesagem ver o cara com os olhos fundos, correndo, embrulhado em agasalhos, mascando chiclete, cuspindo e urinando a todo o instante. São dois estados, o líquido e o drenado.

(M/PF) – Cláudio, um assunto que perguntamos a todos os nossos entrevistados: qual a sua opinião sobre o papel dos esteróides no esporte, seu emprego para melhora de performance, seu emprego clínico e a postura do Comitê Olímpico Internacional? Lembrando que o Portal do Ferro mantém neutralidade quanto a esta questão.

(Cláudio) - Eu acho que o COI quer fechar os olhos para os esteróides. Sou a favor do exame anti-dopping geral. Ou todos fazem ou ninguém faz. Todos os anos se quebram os recordes. Roupas novas? Tênis com amortecimentos? Novos materiais? Isso só na Fórmula 1 que funciona. Ou alguém acredita que o homem evolui ano após ano? As drogas sempre existirão se o exame não for geral. Tem uns caras com orelhas do tamanho de sandálias havaianas... Dizer que o GH passou ali é cristalina verdade! Sou contra o exame anti-dopping nos moldes da amostragem. As drogas servem para mudar um estado, de maneira geral. Daí partem todos os conceitos. Ninguém usará maconha para uma prova de corrida, ou mesmo cocaína para o tiro olímpico. O problema é que todo o ano patrocinadores, mídia e o próprio COI clamam por recordes, por superação... Ninguém é mágico. Mas, todos podem ser ilusionistas...

(M/PF) – A Luta de Braço é um esporte não muito conhecido no Brasil e que tem uma imagem pública pouco associada a um esporte organizado e institucionalizado. Qual sua opinião sobre isso? O que você acha da expansão deste esporte no Brasil?

(Cláudio) - O problema são as pessoas de ocasião. Em todo o esporte tem isso. Um exemplo claro é o Jiu-Jitsu. Academias proliferam a todo o instante e pessoas ganham faixas pretas e se tornam os “fodões” em pouquíssimo tempo, sem a devida qualidade. Na Luta de Braço também é assim. Sempre tem os pangarés e os bracistas. Pangaré é quem luta em boteco, mesinha de sinuca... Isso não é esporte. É várzea. Isso começa a queimar o esporte. Depois, o filme do Falcão (Over to the Top)... Tem gente que acha o máximo a expressão de força do Lincoln Hawk que sai de um cruzado martelo e escala perto da almofada, com a mão amarrada, um cavalo muito maior que ele. De verdade, nem o Brzenk faria aquilo. Fora o cara tomando óleo de caminhão... Um monte de gente feia... Ihhh não! Aquele filme detonou a imagem da Luta de Braço no Brasil. Em outros países, acontece uma Loteria... Uma espécie de aposta em Bracistas. Tudo bem que o jogo não é legalizado aqui. No entanto, seria interessante acontecer algum desafio vez que outra. Ou uma transmissão não caricaturizada da Luta de Braço. Sem os grandões com cara de mal, dizendo que vão torcer o braço, quebrar a mão... Sem ameaças. Jogo limpo, jogo de verdade, bem arbitrado, organizado. A Luta de Braço é um esporte marginal. Não tem rico praticando. Não tem dinheiro envolvido, grandes patrocinadores... Tudo isso por causa dessa imagem de boteco e de desafio “bad boy” onde é rotulado o esporte. São poucas as reportagens sérias. O Boxe é um esporte marginal. Depois que o Popó ganhou espaço e os atores da Globo começaram a praticar pra ficar no “shape” do verão, o Boxe ficou bem mais acessível e passou a ser relevado e respeitado por pessoas que antes consideravam um esporte de gente violenta. Tudo que faz sucesso hoje envolve o culto ao corpo ou as marcas. Nike, Adidas, Puma... Eles não sabem que existimos. Os bracistas geralmente são desproporcionais, à moda “sabirila” (perna de sabiá, corpo de gorila). Em contrapartida posso garantir que os bracistas tem a pegada forte! Para melhorar a imagem do esporte de força, deveria ser oportunizado aos alunos da rede escolar a Luta de Braço. Na Suécia, Noruega, Ucrânia e Rússia, quase toda a escola tem uma mesa. É um esporte muito barato e aberto. Uma mesa muito boa custa R$ 400,00. Uma mesa capeta sai por menos da metade do preço. Pode-se praticar a partir dos 13, 14 anos ou antes... Com a inclusão dos deficientes nas escolas, a Luta de Braço passa a ser um instrumento de integração, onde o cadeirista ou muletista conseguirá facilmente superar um aluno normal e ganhar respeito dentro do grupo (por mais amargo que isso soe, ainda é uma verdade). A mesa é pequena e cabe em qualquer lugar. O que falta mesmo é tirar o tabu de esporte de boteco. A Luta de Braço é democrática. O gordo joga com o magro, o alto com o baixo, o negro com o branco, o deficiente com o normal... E, na visão mais apaixonada do bracista, as mãos unidas simbolizam algo que falta muito as pessoas hoje: a união. Ao final das lutas o gesto é quase sempre o mesmo. As mãos juntas se levantam e as mãos que estão no pino fazem o abraço. É o gesto da integração. É o símbolo da Luta de Braço.

(M/PF) – Finalmente, quais são os seus objetivos na Luta de Braço para o futuro?

(Cláudio) - Quero me recuperar de algumas lesões e aprimorar algumas técnicas que estão em baixa. Treinarei em 2007 no Rio Grande do Sul, enquanto faço o curso de Mestrado. Depois que voltar a Londrina, mais próximo dos campeonatos, certamente irei ao Seleções e ao Interclubes. Buscarei realizar um sonho que está guardado faz 2 anos... Ir a um campeonato mundial. Com muita força e com muita fé, treinarei em busca da minha melhor forma. Não me engano acreditando que competirei sempre, porque preciso trabalhar e nem sempre estarei em uma cidade com possibilidade de deslocamento rápido e proporcionalmente confortável e baratro. Porém, pela amizade, pelo clima, pelos bons momentos, tentarei ir ao máximo de eventos nacionais quando “retornar ao circuito”, em 2008. Por hora, espero que meus amigos bracistas façam ótimas participações em 2007. Tenho meus favoritos, mas, não falo... Que eles impressionem na Bulgária este ano!



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